Ser ou não ser FISL?

No período de 13 a 16 de julho de 2016, tive a felicidade de palestrar no FISL17 – 17º Festival de Software Livre no qual apresentei um pouco sobre o “Crianças Hackers: crianças e adultos aprendendo juntos“. Já estava bastante animada quando, poucos dias antes de pousar em terras gaúchas, fui comunicada que poderia  mostrar, também, um pouco dos meus estudos de doutorado através da palestra “Iguais e diferentes: um pouco dos hackerspaces brasileiros”.

Se eu já estava animada com a oportunidade de discutir o Crianças Hackers com pessoas de outros locais do país, fiquei ainda mais feliz e desafiada. Essa boa surpresa foi possível porque o FISL é um encontro que preza pela colaboração em sua preparação e para tanto, a Associação de Software Livre (ASL) organizadora do  Festival, promove o uso de tecnologias que favoreçam a interação entre as pessoas, em diversas instâncias, agilizando parte do processo de decisão.

Sob mediação do atencioso Paulo Santana, foi criado um grupo de palestrantes no Telegram dias antes do evento. Nesse grupo, começamos a conversar sobre o Festival e sobre a cidade de Porto Alegre, trocamos opiniões e inquietações. Havia palestrantes de primeira viagem que falavam sobre aquele  “frio na barriga”, comum em momentos de ansiedade, e havia outros, como eu, que reclamavam do frio do inverno Porto Alegrense (meus dedinhos ficaram gelados!). E foi ali, nesse espaço virtual do mensageiro instanêo, que fomos convidados a contribir para que não houvesse lacunas na programação, no caso de algum palestrante não conseguir participar do evento conforme previsto. Assim, várias pessoas apresentaram propostas extras, mostrando o desejo de socializar experiências e de partilhar conhecimentos.

Outro software de interação usado durante o evento foi o Makadu. O Makadu é um aplicativo versátil, uma plataforma para eventos múltiplos que permite a consulta da programação de cada um deles, o envio de perguntas aos palestrantes e a avaliação das palestras assistidas.

As palestras eram organizadas em uma área pública e uma área restrita. A área restrita, organizada em grandes e confortáveis auditórios com capacidade para 250 a 350  pessoas,  só poderia ser acessada mediante inscrição paga, à exceção da sala Paulo Freire, que era aberta a visitantes. Contudo, destaco que as palestras de todas as salas foram transmitidas via internet.

Já a área pública se assemelhava à uma feira livre, com palcos abertos, laboratórios de tecnologias  livres, quiosques de grandes empresas ou e de pequenos empreendedores criativos, áreas destinadas às comunidades, cercada de puffs, bancos, sofás e tapetes, dispostos de forma a acolher corpos cansados ou grupos afim de conversar. Havia também uma área dedicada ao FISLinho, espaço dedicado às crianças, cuja organização foi sob responsabilidade da turma do Boquinha.

O album de fotos mostra atividades realizadas nesses espaços.

No espaço Comunidades participei do “ELLAs Debatem: Hackerfeminismo & o Empoderamento Tecnologico | No FISL”, uma provocante roda de conversa, organizada na metodologia fishbowl sob mediação da colega Branca. Tenho horror do conceito de empoderamento (especialmente quando dizem que vem de Paulo Freire – preciso fazer uma postagem só sobre isso!), mas a roda de conversa foi muito proveitosa e necessária, pois demarcou alguns espaço de luta cotidiana que enfrentamos devido à educação sexista naturalizada em nossa sociedade. Chorei com alguns depoimentos que prefiro não detalhar agora, basta dizer que ainda me espanto com as violências veladas que sufocam a vida.

Em um texto de Rafael Evangelista (2014), aprendi que o Fisl tem um formato hibrido que “mistura feira de negócios e exposições, congresso científico e fórum político de debates”, sendo originado pela articulação de servidores e gestores da empresa estatual Companhia de Processamento de Dados do Rio Grande do Sul (Procergs)e que seu fortalecimento esteve ligado ao apoio recebido de governos de esquerda.

A 17ª edição  foi meu primeiro FISL e achei tudo muito grandioso e organizado (veja aqui os numeros do Fils17). Porém, ouvi dizer que o FISL17 encontro era um reflexo da crise financeira e política de nosso país, se comparado com as edições anteriores. Faltaram investidores, a verba estava escassa, os custos altos, as incertezas muitas.  Ali, conheci pessoas que estavam desde a primeira edição. Pelo que entendi, o Fisl foi se tornando cada vez maior e grandioso, inclusive com a presença do ícone  Richard Stallman, um dos maiores defensores das quatro liberdades do software livre e  criador da General Public Licence (GPL) que garante domínio público para o software produzido sob essa licença.

Como faz parte da produção humana, o crescimento do Fisl gerou contradições, como problematizado no  Manifesto contra a pseudociência no FISL 16  e  Quem paga pela pseudociência no FISL? , textos de André Machado. Pelos corredores, ouvi ainda comentários de que o encontro estava se tornando extremamente mercadológico, afastando-se de sua filosofia original. Talvez eu esteja enganada mas, nesse sentido, a atual crise política e econômica pareceu impor à ASL um repensar de rumo para continuidade do evento, evidenciando a necessidade de investir em captar novos associados, reduzindo a dependência de verbas governamentais.

Agora, escrevendo esse breve relato, estou me dando conta de o desafio a ser encarado é cada vez maior. O FISL está entre o maiores eventos de software livre do mundo e espelha a história do Brasil em relação ao movimento do Software Livre. Havendo diminuição do investimento de verbas públicas, como esse encontro poderá se sustentar de modo coerente? Um festival tão versátil e abragente como esse (veja aqui os numeros do Fisl17) certamente é assediado – discretamente ou não – por grandes coorporações tecnológicas que não prezam muito pelas quatro liberdades  que nós defendemos.

Ser ou não ser FISL, eis a questão… bem, farei a minha parte: mesmo sabendo que minha parca contribuição anual não é suficiente para resolver todos os problemas, vou me associar à ASL. Essa é minha humilde e esperançosa contribuição.

Quem mais vem?

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Foto: Alexandre A. Kupac

(Não falei aqui do Grupo de Trabalho Educação do FISL, grupo do qual me aproximei por sugestão do Prof. Nelson Pretto e no qual encontrei pessoas incríveis… e também guardei a minha ida ao CESMAR (Colégio Marista), ao lado de Leo, Salete e Dan Basco, mas teremos tempo. Esse foi SÓ o meu primeiro FISL)

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